(...) Ah, não há saudades mais
dolorosas do que as das coisas que nunca foram! O que eu sinto quando penso no
passado, que tive no tempo real, quando choro sobre o cadáver da vida da minha
infância ida..., isso mesmo não atinge o fervor doloroso e trémulo com que
choro sobre não serem reais as figuras humildes dos meus sonhos, as próprias
figuras secundárias que me recordo de ter visto uma só vez, por acaso, na minha
pseudovida, ao virar uma esquina da minha visionação, ao passar por um portão
numa rua que subi e percorri por esse sonho fora.
... quando medito que os meus
amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com quem
tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não pertenceram,
afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente, independente da minha
consciência deles!
As flores do jardim da pequena casa
de campo e que nunca existiu senão em mim. As hortas, os pomares, o pinhal da
quinta que foi só um meu sonho! As minhas vilegiaturas supostas, os meus
passeios por um campo que nunca existiu! As árvores de à beira da estrada, os
atalhos, as pedras, os camponeses que passam... tudo isto, que nunca passou de
um sonho (...) uma vida real morta que fito, solene, no seu caixão.
(...) Certos quadros sem subido
relevo artístico, certas oleogravuras que havia em paredes com que convivi
muitas horas — passam a realidade dentro de mim. Aqui a sensação era outra,
mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar ali, quer eles fossem reais ou
não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais, desenhada ao pé daquele bosque ao
luar que havia numa pequena gravura dum quarto onde dormi já não em pequeno!
(...) As feições da minha saudade eram outras.
Os gestos do meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava
era de outra ordem de angústia. (...) Não haver, pelo menos só para mim, um
paraíso feito disto! Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas
ruas que criei, acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar
matutino da casa, na casa de campo em que eu me supus...
O mal da vida, a doença de ser
consciente, entra com o meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para
os inconfortáveis, alamedas vetustas, inencontráveis de outros para os isolados
no sonhar! Ter de viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo fato
de haver outra gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto,
por me ser preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas,
exprimi-lo sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de
mim-próprio em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos
olhos só de me sentir expressar-me, e eu florisse, como um rio encantado, por
lentos declives de mim próprio, cada vez mais para o incoinconsciente e o
Distante, sem sentido nenhum exceto Deus.
(Fernando Pessoa, in Livro do
Desassossego)
